Janeiro passou quase sem filmes.
Em compensação, mergulhei durante duas ou três semanas no universo feminista de Stieg Larsson (e sua trilogia Millenium, com títulos imensos) e mais alguns dias no "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley.
Duas leituras bem diferentes, a começar pelo volume dos livros: a trilogia soma algo como 1800 páginas, enquanto o tímido exemplar de Huxley não passa de 225. Mero detalhe, já que Admirável deu muito mais trabalho que todos os Milleniuns juntos.
O que me faz entender o comentário de uma amiga da faculdade sobre a saga Crepúsculo: "é fast-food literário"!
Sim, "fast-food" porque é fácil, não porque é ruim. É fácil, é sedutor, é Hollywood... Mas não alimenta. Você não sai dali com novas ideias, energias, sentimentos dos mais indesejáveis, nem completamente indefeso ou deslumbrado... Isso seria Arte. Mas, por outro lado, é preciso ser justo: ninguém consegue viver de Arte o tempo todo - é algo que precisa ser digerido, que leva algum tempo e que nem sempre é agradável. Como entretenimento, fast-food é muito melhor.
Agora, voltemos aos Milleniuns... A trilogia conta uma história aceleradíssima e por vezes bastante absurda de investigação e corrupções na Suécia. Por esse lado, é quase um "Duro de Matar", cheio de ação e heroísmo (divertidíssimos, diga-se de passagem!).
Mas a obra de Larsson tem algo de diferente... Primeiro, ela é sensual, mas de um jeito quase crítico: os personagens se envolvem em mil relacionamentos, com homens ou mulheres, conjugais ou extra-conjugais, mas todos sem a menor sombra de culpa ou pecado. São relações menos amarradas, sem grandes intrigas, tudo em pratos limpos - como não se vê por aí, e por isso é tão tentador.
Segundo, ela é extremamente feminista. Mas foi escrita por um homem, e por um jornalista. Dessa mistura, nasce um romance um tanto fetichista (mulheres super independentes, homens irresistíveis, tudo quase James Bond), porém ao mesmo tempo com forte teor de denúncia. Ali, são os abusos (sexuais ou não) contra as mulheres que movem a história, dando ao leitor e principalmente à leitora uma sensação ruim, de revolta. Mas também - e essa é a sua maior qualidade - faz pensar em como tudo aquilo, talvez em outros contextos e outras proporções, é real. E é algo em que não costumamos pensar, de verdade... Me fez mudar alguns conceitos.
Terminada a trilogia e sem muito descanso, tomei emprestado o pequeno Admirável Mundo Novo, que é um daqueles livros que não se pode deixar de ler, e eu já estava passando da hora.
Tive a sorte de pegar uma versão com um prefácio do autor, comentando o que ele gostaria de ter mudado na sua obra e como ele não gostava de ter estereotipado tanto as opções de vida no seu "mundo novo". Tenho que dizer que não concordo com ele.
Uma das virtudes desse livro é justamente o exagero: o fordismo é levado ao extremo e nos colocamos a pensar como seria o mundo se o "bem-estar social" fosse o objetivo máximo de todas as invenções tecnológicas e as políticas públicas. O resultado, aqui, é uma felicidade dopada e um exército de clones perfeitos (mesmo que "perfeito", para a sociedade, seja ter uma parcela de indivíduos fracos e menos inteligentes, e que mesmo os mais brilhantes se comportem como crianças nas horas de lazer).
O mais interessante é que, para criar essa sociedade "moderna", Huxley destrói a noção de família, fazendo crianças nascerem de tubos e casais não serem mais do que diversão (a monogamia e o parentesco são os novos "pecados", são indecentes). Faz pensar...
Para fechar, deixo vocês com um trecho arrepiante, quase no final do livro, que resume toda a mensagem do autor. Divirtam-se!
"_ Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.
_ Em suma _ disse Mustapha Mond _ o senhor reclama o direito de ser infeliz.
_ Pois bem, seja _ retrucou o Selvagem em tom de desafio. _ Eu reclamo o direito de ser infeliz.
_ Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; no direito de ter sífilis e câncer; no direito de não ter quase nada que comer; no direito de ter piolhos; no direito de viver com a apreensão constante do que poderá acontecer amanhã; no direito de contrair a febre tifóide; no direito de ser torturado por dores indizíveis de toda espécie.
Houve um longo silêncio.
_ Eu os reclamo todos _ disse finalmente o Selvagem."


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