quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Cultura por todos os lados! (Parte 3)

Agora é a vez da televisão, pra quem ficou em casa no Carnaval!

Desfiles das escolas-de-samba
Não, não é mentira: eu nunca assisti aos desfiles de Carnaval. Nunca nem quis assistir, e só a visão da Globeleza já me tirava do sério! Mas, desta vez, deixei o preconceito de lado e resolvi dar uma chance.

Acontece que, nos meus primeiros semestres de faculdade, eu entrei para a bateria. Toquei caixa por alguns meses e aprendi a gostar de samba - daí ter ficado mais receptiva aos tais desfiles!

Enfim, sentei-me ao sofá nos quatro dias (São Paulo e Rio), para ver as primeiras escolas. Só a primeira e parte da segunda, na verdade, porque sempre caía no sono por essa altura. Não vou comentar uma por uma, mas um amigo meu me pediu que listasse três pontos positivos que eu descobri nessa brincadeira, e aqui estão:

1- Os sambas-enredo, apesar de muito parecidos uns com os outros, contam uma história. Dá pra ver que as escolas realmente se empenham em ensinar alguma coisa a quem assiste, e o desfile todo funciona como uma peça de teatro, com seus atos se encadeando através das alas e os carros sintetizando cada momento.

2- A comissão de frente, eu-leiga-não-sabia, quase sempre interpreta uma coreografia de balé! Achei lindo como linguagens tão diferentes podem se respeitar, criando uma coisa nova!

3- Existe espaço para novidade. A coisa das roupas trocando milagrosamente, dos passistas encenando lutas, touradas ou mesmo uma cachoeira no meio da bateria foi bem bacana.

Pena que, pra mim, é tudo longo demais... E a música, gritada do jeito que é, perde um pouco o sentido.


Finais das duplas de patinação no gelo
E precisa comentar?
Pela primeira vez consegui acompanhar todas as duplas, nos dois últimos dias, e acabei tendo uma ideia muito melhor do que são as técnicas, o que é a dança e o que tira ponto.

Sobre a dupla vencedora, chinesa, acho que sei por que ganharam: além das acrobacias perfeitas, sinto que a mulher tem estilo. Ela dança com o corpo inteiro, de um jeito que nenhuma outra patinadora faz. Ela dança, realmente, parece mole, e elástica, e expressiva, e um tanto contemporânea! Fez toda a diferença.

Cultura por todos os lados! (Parte 2)

Preciosa
Claireece Precious Jones será um ícone.

A versão cinematográfica do drama escrito por Sapphire, mesmo que contida, deixa uma marca. A violência que acompanha toda a vida da pobre, negra e gorda personagem fica apenas sugerida, mas só a sua ideia já revira o estômago, de tão óbvia e verdadeira.

A maior virtude de "Preciosa", porém, não é a tragédia em si (já bem desgastada nas telonas), mas sim a sua solução. O final não é mágico. Este não é um conto de fadas, e muito provavelmente o futuro de Claireece não será feliz.

A grande transformação por que ela passa está na sua própria atitude, que passa de passiva e conformada a ativa e dona de sua vida. Para mim, uma cena resume toda a mensagem do filme: Claireece conta para a professora que aquela é a primeira vez que ela fala em sala-de-aula. Indagada sobre "qual é a sensação", ela responde que se sente "aqui". Presente...

Acho que o recado vale para todos.


Contatos de 4º Grau
Meu primeiro pensamento ao assistir a "Contatos de 4º Grau" foi que Milla Jojovich em nada lembrava a psicóloga Abigail Tyler, sua personagem. A doutora, cujas entrevistas e gravações supostamente originais dividem espaço com as encenações dos atores, é a parte mais assustadora do filme. Seu rosto, longo e permanentemente assustado, com olhos saltados e a boca levemente contorcida, é capturado com uma cor acinzentada, que o torna ainda mais fantasmagórico. Das duas, o espectador deve escolher uma: ou ela foi abduzida, ou é louca. O terror serve para qualquer uma das interpretações - por isso as quatro estrelinhas do filme, no guia...

Para os amantes das teorias alienígenas, o filme é um banquete: sem mostrar um pingo de pele verde, ele lança uma dúvida sobre as visitas, visões e abduções como algo muito tênue entre a loucura e a realidade, intrigando até o mais descrente dos cinéfilos.

A escolha de uma psicóloga para o papel principal também ajuda: as sessões de hipnose praticadas por ela são o mais próximo que chegamos de uma prova "científica" dos acontecimentos, e ainda assim têm um quê de sobrenatural. No fim, cabe mesmo ao espectador escolher: não se pode saber se é realidade, mas também não se pode saber se não é.

Eu já tirei minhas conclusões. E você?


Se Beber, Não Case
Peguei esse filme na locadora com os dois pés atrás. Afinal, ninguém aguenta mais aquelas comédias "de moleque", transbordando álcool, peitos e piadinhas infames de adolescentes que acham lindo ser irresponsável. Nada contra, já vi muito American Pie e dei minhas risadas! Mas cansou...

"Se beber, não case", felizmente, não tem nada disso: é uma comédia de homens, sim, mas mais maduros, que se casam, não se sacaneiam de propósito e nem queriam ter ficado tão chapados assim! E tem sua parcela de bonitões e bonitonas, pra não passar batido... Gostei do começo ao fim!

Cultura por todos os lados! (Parte 1)

Nas ruas: Ano Novo Chinês e Cow Parade
Nos cinemas: Preciosa e Contatos de 4º Grau
No DVD: Se beber, não case
Na televisão: desfiles de Carnaval e patinação no gelo

Tudo a ver? Nada a ver!
Mas foram coisas que animaram minhas últimas semanas e que merecem, no mínimo, algumas linhas.

Ano Novo Chinês na Liberdade

No sábado passado, voltei ao bairro oriental de São Paulo depois de alguns anos de ausência. Sempre fui muito "devota" daquele canto da cidade, mas as faculdades e a falta de uma boa desculpa me afastaram um pouco de lá. Pois a desculpa chegou, na forma do Ano Novo Chinês.

Fui sem saber o que esperar. Sentei-me numa mesa do café Sol para almoçar e logo comecei a ver o movimento ficar cada vez mais intenso do lado de fora. Saí na hora certa: na Galvão Bueno, em frente ao café, já passava o desfile das academias de Kung Fu (maioria esmagadora) e outras artes marciais. Ao fundo, vinha um som de bateria - não de tambores, de bateria mesmo. De escola-de-samba! Vai entender... De qualquer forma, achei bonito.

Na rua, desfilavam dragões tradicionais em várias cores e jovens lutadores, demonstrando alguns movimentos básicos (ou nem tanto). Quando a multidão já se dispersava, e eu mesma já tinha descido alguns quarteirões, ouviu-se o grito do Ano Novo. Corri para ver, mas perdi os fogos-de-artifício e os balões, que peguei apenas num relance. Achei engraçado comemorar a virada do ano assim, debaixo do sol do meio-dia...


Cow Parade


Vacas por todos os lados. Três, apenas na Sumaré! Uma ciclista, uma ecológica e uma cor-de-rosa, toda primaveril. Dentro do shopping Bourbon, minha preferida: a vaquinha Bumba brilha, decorada de lantejoulas e pedras coloridas, peruíssima! Amo.
Dica - veja quase todas as vacas de 2010 aqui:
http://www.cowparade.com.br/galeria.php

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Literárias

Janeiro passou quase sem filmes.

Em compensação, mergulhei durante duas ou três semanas no universo feminista de Stieg Larsson (e sua trilogia Millenium, com títulos imensos) e mais alguns dias no "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley.

Duas leituras bem diferentes, a começar pelo volume dos livros: a trilogia soma algo como 1800 páginas, enquanto o tímido exemplar de Huxley não passa de 225. Mero detalhe, já que Admirável deu muito mais trabalho que todos os Milleniuns juntos.

O que me faz entender o comentário de uma amiga da faculdade sobre a saga Crepúsculo: "é fast-food literário"!

Sim, "fast-food" porque é fácil, não porque é ruim. É fácil, é sedutor, é Hollywood... Mas não alimenta. Você não sai dali com novas ideias, energias, sentimentos dos mais indesejáveis, nem completamente indefeso ou deslumbrado... Isso seria Arte. Mas, por outro lado, é preciso ser justo: ninguém consegue viver de Arte o tempo todo - é algo que precisa ser digerido, que leva algum tempo e que nem sempre é agradável. Como entretenimento, fast-food é muito melhor.

Agora, voltemos aos Milleniuns... A trilogia conta uma história aceleradíssima e por vezes bastante absurda de investigação e corrupções na Suécia. Por esse lado, é quase um "Duro de Matar", cheio de ação e heroísmo (divertidíssimos, diga-se de passagem!).

Mas a obra de Larsson tem algo de diferente... Primeiro, ela é sensual, mas de um jeito quase crítico: os personagens se envolvem em mil relacionamentos, com homens ou mulheres, conjugais ou extra-conjugais, mas todos sem a menor sombra de culpa ou pecado. São relações menos amarradas, sem grandes intrigas, tudo em pratos limpos - como não se vê por aí, e por isso é tão tentador.

Segundo, ela é extremamente feminista. Mas foi escrita por um homem, e por um jornalista. Dessa mistura, nasce um romance um tanto fetichista (mulheres super independentes, homens irresistíveis, tudo quase James Bond), porém ao mesmo tempo com forte teor de denúncia. Ali, são os abusos (sexuais ou não) contra as mulheres que movem a história, dando ao leitor e principalmente à leitora uma sensação ruim, de revolta. Mas também - e essa é a sua maior qualidade - faz pensar em como tudo aquilo, talvez em outros contextos e outras proporções, é real. E é algo em que não costumamos pensar, de verdade... Me fez mudar alguns conceitos.

Terminada a trilogia e sem muito descanso, tomei emprestado o pequeno Admirável Mundo Novo, que é um daqueles livros que não se pode deixar de ler, e eu já estava passando da hora.

Tive a sorte de pegar uma versão com um prefácio do autor, comentando o que ele gostaria de ter mudado na sua obra e como ele não gostava de ter estereotipado tanto as opções de vida no seu "mundo novo". Tenho que dizer que não concordo com ele.

Uma das virtudes desse livro é justamente o exagero: o fordismo é levado ao extremo e nos colocamos a pensar como seria o mundo se o "bem-estar social" fosse o objetivo máximo de todas as invenções tecnológicas e as políticas públicas. O resultado, aqui, é uma felicidade dopada e um exército de clones perfeitos (mesmo que "perfeito", para a sociedade, seja ter uma parcela de indivíduos fracos e menos inteligentes, e que mesmo os mais brilhantes se comportem como crianças nas horas de lazer).

O mais interessante é que, para criar essa sociedade "moderna", Huxley destrói a noção de família, fazendo crianças nascerem de tubos e casais não serem mais do que diversão (a monogamia e o parentesco são os novos "pecados", são indecentes). Faz pensar...

Para fechar, deixo vocês com um trecho arrepiante, quase no final do livro, que resume toda a mensagem do autor. Divirtam-se!

"_ Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.
_ Em suma _ disse Mustapha Mond _ o senhor reclama o direito de ser infeliz.
_ Pois bem, seja _ retrucou o Selvagem em tom de desafio. _ Eu reclamo o direito de ser infeliz.
_ Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; no direito de ter sífilis e câncer; no direito de não ter quase nada que comer; no direito de ter piolhos; no direito de viver com a apreensão constante do que poderá acontecer amanhã; no direito de contrair a febre tifóide; no direito de ser torturado por dores indizíveis de toda espécie.
Houve um longo silêncio.
_ Eu os reclamo todos _ disse finalmente o Selvagem."