A xícara de chá
terça-feira, 27 de setembro de 2011
De volta e de mudança
Quase um ano se foi desde a última postagem... Mas voltamos, e agora estamos de casa nova, devidamente organizada e pronta pra bombar! Sem mais delongas, abrimos com "Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos", Woody Allen pra vocês.
Sejam bem-vindos ao:
http://cinemanaxicara.wordpress.com/
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
O ballet cinematográfico de Cisne Negro
Voltando de férias com uma lista enorme de filmes para ver no cinema: Biutiful, Cisne Negro, Tio Boonmee, O Discurso do Rei, O Concerto, O Mágico, Um Lugar Qualquer, Lixo Extraordinário, O Turista… Como saio novamente amanhã, duvido que consiga dar conta de tudo antes que saiam de cartaz. Nesse meio-tempo, no DVD, descobri a delícia que está o novo Príncipe da Pércia (ah, o bom e velho joguinho de computador…), com efeitos na medida e uma história intrigante, cheia de labirintos à lá Indiana Jones. Do outro lado, me decepcionei com Almodóvar em Abraços Partidos, bastante sonolento (e nem é “cabeça”…é simplesmente sem graça). Agora, ao que interessa:
Cisne Negro (Black Swan, 2010)
Natalie Portman e o diretor Darren Aronofsky (do também ótimo O Lutador e de Requiem para um Sonho, na minha lista de must-see) brilham numa sintonia frenética sobre o palco (ou a tela) de Cisne Negro. O filme concorre a seis estatuetas este ano e já levou o Globo de Ouro de melhor atriz. Ela vai ganhar fácil.
Cisne Negro deve ser assistido com a mente aberta: tudo é teatral, tudo é metafórico. Mistura-se a trama real a delírios fantásticos e trilhas horripilantes, a ponto de você não saber ao certo se acredita ou não no que vê: mas não era um filme sobre uma bailarina? Mais um daqueles sobre atletas que se dedicam visceralmente (esse foi o adjetivo que minha mãe deu à atuação de Natalie: visceral) a enfrentar um desafio? A resposta é: sim, e não.
A trama inicial é sobre uma bailarina que se vê diante da oportunidade de viver o papel principal na peça O Lago dos Cisnes (o do Cisne Branco), mas tem que trabalhar para dominar também o papel secundário, da rival que lhe rouba o amor do príncipe (o Cisne Negro) e a leva ao suicídio.
Seria apenas mais um filme, se Aronofsky não escolhesse explorar o próprio drama do balé é transportá-lo para os personagens, transformando Cisne Negro num grande palco sobre a tela do cinema.
Nina (Natalie) personifica o Cisne Branco na sua doçura, passividade e exatidão: ela é obcecada por perfeição e isso se revela na sua pele (arranhada inconscientemente) e no seu corpo (magérrimo, resultado dos vômitos rotineiros e da negação da comida). A ameaça da rival surge com a chegada de Lily, bailarina habilidosa e bem menos preocupada com a técnica, que atrai a atenção do professor, objeto de desejo inconsciente de Nina.
Lily poderia ser vista como o Cisne Negro, se não fosse a própria Nina seu maior adversário. A bailarina cede às pressões do professor (que a inicia à sexualidade – coisa que começo a questionar agora se não foi também imaginada por Nina..) e da mãe (ex-bailarina, superprotetora e carente) e mergulha num caminho sem volta em busca do seu lado “negro”: ela precisa se soltar, ser mais agressiva, provocadora, sensual. ( Sim, lembro-me automaticamente de Star Wars, Homem Aranha, Clube da Luta….Todo herói tem seu antagonista, afinal. )
Em outras palavras, Nina precisa crescer. O drama da adolescência, quando se abandona a inocência e se descobre o mundo, quando a mãe perde o seu papel de protetora e se torna um obstáculo, quando o maior inimigo é seu próprio medo do desconhecido. Esta talvez seja a maior metáfora de Cisne Negro, um tema universal que separa o “simples filme sobre uma companhia de ballet” de uma obra de arte sensível e surpreendente.
A montagem garante que o tema não se torne piegas. Mas contar mais que isso seria maldade.. Vá ao cinema mais próximo e tire suas conclusões.
Avaliação: surpreendente, criativo, intenso.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Para mulheres e crianças
Mais dois títulos deste ano, que não consegui ver no cinema e não pude deixar de alugar na minha locadora querida: Ponyo, a última obra de arte do Miyazaki, e The Runaways, sobre a banda de mulheres dos anos 70.
Ponyo – uma amizade que veio do mar (2010)
As animações de Hayao Miyazaki sempre impressionam pela beleza: ele ainda desenha à mão e seus cenários parecem saídos de telas de aquarela, com cores suaves e traços aparentes de pincel. Nos transportamos imediatamente à nossa infância (pelo menos quem nasceu até meados dos anos 90, quando ainda não havia Toy Story).
Como não assisti ao Meu VizinhoTotoro, maior clássico do diretor japonês, não tenho lá muito direito de situar Ponyo entre as outras obras. Mas, comparando com Viagem de Chihiro (o primeiro que estourou no Brasil, antes de O Castelo Animado, que não vi), Ponyo é bem menos sombrio e fala a língua das crianças.
Não que não agrade aos adultos: achei lindo e minha mãe amou. Mas talvez não faça o tipo de um homem mais prático, fã de Rambo... É um filme sensível. (Nota: eu gosto de Rambo, mas sou mulher né…a gente é flexível).
A história gira em torno de dois personagens: um menino de 5 anos, Sosuke, filho de uma enfermeira (que cuida de idosos, coisa bonita da cultura oriental) e um marinheiro; e uma peixinha, que ele apelida de Ponyo e que se transforma numa menina de também 5 anos. O problema é que, ao se transformar, Ponyo acaba causando um rebuliço entre os peixes e liberando uma espécie de energia, que seu pai guardava para transformar o mundo num grande oceano da era cenozóica! O resultado é que as águas ficam violentas e cheias de animais pré-históricos, inundando toda a costa.
Quando digo que fala como as crianças, é porque a narrativa é livre e não parece obedecer a nenhuma lógica que não uma imaginação inocente: o mar é um universo fantástico onde vivem peixes com cara de gente; o dono dos peixes é um homem casado com a deusa do amor; a cidade é inundada, mas todos ficam num lugar seguro (para que inundar então? Coisa de criança…que planeja o desastre, mas depois se lembra de que todos precisam estar reunidos no grand finale).
Algumas coisas não são explicadas, outras são até demais. Não há espaço para mistério… Mas, apesar disso tudo, Ponyo é um filme lindíssimo que rende até algumas risadas. O comportamento das crianças é tão perfeito que a história até parece ficar em segundo plano, às vezes, para podermos observar cada detalhe.
Conclusão: é um filme infantil, mas ganha pela beleza.
The Runaways – garotas do rock (2010)
Kristen Stewart e Dakota Fanning. Bella, de Crepúsculo (ou a menina do Quarto do Pânico) e a minúscula Lucy, de I am Sam… Não é à toa que The Runaways até foi falado antes de ir aos cinemas, mas foi logo seguido de um silêncio absoluto e de uma passagem curta e tímida pelas telonas.
Um filme sobre a primeira banda de punk rock feminina não seria nada novo, se sua principal compositora não fosse lésbica. E justamente uma lésbica interpretada pela mesma atriz que interpreta a romântica e feminina personagem da saga milionária Crepúsculo…Saga que ainda não terminou, o que nos leva a pensar que uma imagem tão masculina da sua heroína poderia não ser muito desejada pelos produtores… Mas, seja qual for a razão que levou a mídia a de repente esquecer este filme, ele é apenas mais um filme sobre a ascensão e a queda de uma banda.
Joan (Kristen) é uma rockeira de coração: quer aprender a tocar guitarra e comprar jaquetas de couro, mas ouve de todos os lados que “isso não é para mulheres”. Cherrie (Dakota) é uma menina de classe média que ouve David Bowie e gosta de chocar (ela corta os próprios cabelos e pinta o rosto para uma apresentação do colégio). Joan tem a ideia de montar uma banda de garotas, e pede ajuda para o produtor musical Kim Fowley. Ele, então, é responsável por juntar as meninas (as outras três são meras coadjuvantes no filme) e “ensiná-las” a ter a atitude rock n’ roll. Irrita muito quando ele repete insistentemente que é preciso “pensar como um homem, agir como um homem, cantar sobre o que os homens gostam”. Mesmo assim, elas estouram e vão para uma turnê no Japão.
A história é real e as músicas são realmente boas. Joan Jett continuou sua carreira solo depois que a banda se desmanchou, e não teve grandes problemas com isso. Cherrie (vocalista) era mais a cara e a postura, Joan era a artista. A interpretação das duas está perfeita, e você consegue imaginá-las facilmente vivendo nos anos 70 e querendo ser adultas e famosas.
Kristen parece mais à vontade aqui do que em Crepúsculo (aquela cada de “o que diabos estou fazendo aqui?” finalmente desaparece) e Dakota claramente amadureceu como atriz. Não ficamos imaginando a criancinha que ela foi, mas acreditamos na personagem contraditória que ela representa, que é ao mesmo tempo a luz e as trevas para a banda.
Conclusão: para mulheres rockeiras.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Enfrentando fantasmas
Ilha do Medo (Shutter Island, 2010)
“O que é pior? Viver como um monstro ou morrer como um homem bom?”
Leonardo DiCaprio fez o que todo galã gostaria de ter feito: parou, pensou e aprendeu a escolher tão bem seus filmes que se tornou o queridinho de ninguém menos que Martin Scorcese. Para quem detestava o loirinho de Titanic, agora não dá para negar que DiCaprio é um dos melhores atores jovens de Hollywood, especialmente para filmes policiais/de suspense.
Depois do romance adocicado no começo da tarde, “Ilha do Medo” não desceu tão fácil. Apesar de não ser um terror cheio de sustos e rostos desfigurados como se poderia esperar pelo título, dá para sair desconcertado. “Ilha” é um suspense psicológico, que discute mais uma vez a questão da loucura (lembra a Ilha do Dr. Moreau no começo, depois O Alienista, depois Clube da Luta), assunto sempre delicado.
Os detetives federais Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo) são chamados para encontrar uma paciente fugitiva na ilha onde ficam presos criminosos perigosos com problemas mentais. Isso na década de 50, quando as guerras ainda estavam na memória e no imaginário de todos os personagens. Lá, Teddy passa a suspeitar que o governo americano esteja realizando experiências cirúrgicas com os pacientes, na linha do que os nazistas teriam feito com judeus e outras minorias – coisa que Teddy tinha lutado para combater.
Se você prestar atenção, o filme não é difícil. O final parece deixar uma dúvida, mas na verdade é bem claro. É só querer acreditar, já que Scorcese não nos dá o final que queremos e pelo qual torcemos o filme todo. A resposta que ele dá é a mais racional, enquanto a que queremos é sobrenatural. Certo ele, não? Desaponta um pouco, mas deixa o filme menos óbvio.
O que fica na cabeça depois, além das imagens das criancinhas mortas e das mulheres enigmáticas, é a possibilidade de pensar a loucura como uma escolha até consciente. Como se pode curar alguém que prefere sua vida imaginada?
Conclusão: tenso, mas não imprevisível.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Romance sem comédia
Cartas para Julieta (Letters to Juliet, 2010)
Quando fui pegar esse filme na locadora, a atendente me disse que “não se fazem mais romances de verdade, só comédias românticas”. Pois é verdade… E “Cartas para Julieta” é um sobrevivente.
Sophie (Amanda Seyfried, a da foto) é uma “checadora” de informações, algo como uma assistente de escritor, que confere dados e encontra os personagens corretos entre uma multidão de “João da Silva”s. Mas ela quer mesmo é ser escritora.
Antes do seu casamento, ela combina uma viagem para Verona com o noivo, Victor (Gael García Bernal), como uma lua-de-mel antecipada, já que ele está abrindo um restaurante e não terá tempo para viajar depois. Já dá para deduzir muita coisa daí…
Lá, ela acaba visitando a “casa da Julieta”, que tem um muro de tijolos (o da foto) onde mulheres de todo o mundo deixam cartas pedindo conselhos amorosos. Ao final do dia, um grupo de italianas as recolhe e as responde. Sophie adora a história e decide escrever sobre ela. E é ajudando a recolher as mensagens que ela encontra uma carta escondida, escrita 50 anos atrás, por Claire (Vanessa Redgrave).
Sem contar mais, a partir daí o filme tem muito do dé-ja-vu típico de filmes românticos, reviravoltas e finais felizes, mas arrisca também alguns “conselhos” para a nossa sociedade moderninha e desacreditada: existe amor verdadeiro e ele não se perde; quem ama presta atenção na pessoa amada e quer ouvir o que ela tem a dizer. Nada mais clichê, mas é saudável.
O que salta aos olhos é que o personagem “errado”, aquele que não consegue tirar os olhos do trabalho e até reverte a situação e se exime da culpa ao dizer que “estava dando espaço para a mulher fazer suas coisas” é o mais parecido com os personagens reais…Tão parecido que assusta! Acho que fica uma dica para todos nós.
Conclusão: para românticos.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Harry Potter - quase o fim
Como é um filme dividido em dois, dói o coração a hora que o letreiro começa a subir. Ele acaba no auge, quando você está mais atento e acelerado com o ritmo dos acontecimentos. Começa vibrante, entra em câmera lenta durante as viagens dos três e volta a correr, deixando uma vontade enorme de chegar ao final ou de ler tudo de novo. Mas o final é só em Julho do ano que vem.
No campo sensorial, a música-tema e os cenários abertos (muitos, neste episódio) ajudam a agarrar o espectador e fazê-lo lembrar de todos os outros HPs, como uma coleção que remete à sua própria história. Mérito de sagas longas, como Batman, Star Wars, 007, essas coisas. Já o figurino é uma atração à parte. Destaque pra Emma/Hermione, que agora já está envolvida até os dentes com o mundo da moda.
Conclusão? Para quem gosta de Harry Potter e para quem gosta de fantasia, HP7 é simplesmente necessário. Só não espere muito da polêmica cena do beijo nu entre Harry e Hermione - tão computadorizado que eles nem precisavam estar ali de verdade.
domingo, 14 de novembro de 2010
Quarenta mil
Hoje merece uma pausa no cinema: Norah Jones prometeu e cumpriu seu show gratuito em São Paulo, no Parque da Independência, hoje à tarde.
Para quem, como eu, tinha dúvidas quanto à qualidade de um show gratuito, pode esquecer. O som estava incrível (nítido e alto o suficiente, sem que os instrumentos escondessem a voz), a duração foi ótima (uma hora e meia, mais a abertura) e a organização foi impecável. Mas seria preciso um milagre para acomodar as quase 40 mil pessoas (segundo a UOL) que quiseram ouvir àquele jazz misturado com country que só Norah sabe fazer! Pois, no fim, quase metade ficou para fora.
Sobre a abertura, Jesse Harris era meio desconhecido por aqui, mas conseguiu animar o público com sua simpatia (várias frases em português e bastante humildade). A voz, quase tão fina quanto a do James Blunt, anunciou uma tarde bem à vontade, como foi. Mas o que realmente fez sobrancelhas saltarem foi o percussionista Bill Dobrow: sentado sobre um bumbo (ou algo assim) e com uma baqueta na outra mão (administrando pratos e triângulos), ele foi a banda inteira para Jesse, que tocava a guitarra. Ótimo começo!
Quando Norah entrou, o espaço reservado para o show (que eu, ingenuamente, tinha julgado ser grande demais) já estava lotado e ainda havia fila lá fora. A fila, na verdade, nunca terminou: muitos ficaram lá fora mesmo, pendurados às grades ou atrás do palco, apenas ouvindo a musa. Mas tudo sem violência, muito tranquilo.
As primeiras músicas foram do álbum novo, “The Fall”. O público não cantou junto, mas demorei para descobrir se era por não conhecerem ou por ser um show mais intimista (o que, apesar do tamanho, ele foi). Pois acho que foi um pouco dos dois: em “Don’t Know Why”, a mais famosa por aqui, muita gente cantou – mas só. O clima era mesmo de contemplação, de ouvir um som muito trabalhado (a banda toda tocava mais de um instrumento) e curtir o parque. E por “curtir o parque” incluo até fazer pique-nique com caixa de vinho (caixa, descartável, com uma torneirinha de plástico), queijos cortadinhos e pêras pré-lavadas. Fica a dica! (foram umas moças na minha frente que fizeram isso).
Sobre Norah Jones, nem preciso falar muito: a voz é como no álbum, limpa e rouca, forte e delicada. Sem esforço. Ela, pra minha surpresa, é pequena e parece uma menina! Principalmente agora que cortou o cabelo… Mas é uma mulher muito poderosa: imagine liderar uma banda tão virtuosa como aquela e ainda ser o centro das atenções? Mas, apesar disso, ela parece muito simples. O lado “country” da sua música parece estar nela mesma, no seu jeito de lidar com os colegas (que parecem amigos íntimos) e na sua quase timidez com o público (que diz ter sido o maior para o qual já tocou). Já o lado “jazz” se mostra na sua classe… Ela tem muita classe. Aprendam com ela.

