quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Para mulheres e crianças

Mais dois títulos deste ano, que não consegui ver no cinema e não pude deixar de alugar na minha locadora querida: Ponyo, a última obra de arte do Miyazaki, e The Runaways, sobre a banda de mulheres dos anos 70.

Ponyo – uma amizade que veio do mar (2010)

ponyo2As animações de Hayao Miyazaki sempre impressionam pela beleza: ele ainda desenha à mão e seus cenários parecem saídos de telas de aquarela, com cores suaves e traços aparentes de pincel. Nos transportamos imediatamente à nossa infância (pelo menos quem nasceu até meados dos anos 90, quando ainda não havia Toy Story).

Como não assisti ao Meu VizinhoTotoro, maior clássico do diretor japonês, não tenho lá muito direito de situar Ponyo entre as outras obras. Mas, comparando com Viagem de Chihiro (o primeiro que estourou no Brasil, antes de O Castelo Animado, que não vi), Ponyo é bem menos sombrio e fala a língua das crianças.

Não que não agrade aos adultos: achei lindo e minha mãe amou. Mas talvez não faça o tipo de um homem mais prático, fã de Rambo... É um filme sensível. (Nota: eu gosto de Rambo, mas sou mulher né…a gente é flexível).

A história gira em torno de dois personagens: um menino de 5 anos, Sosuke, filho de uma enfermeira (que cuida de idosos, coisa bonita da cultura oriental) e um marinheiro; e uma peixinha, que ele apelida de Ponyo e que se transforma numa menina de também 5 anos. O problema é que, ao se transformar, Ponyo acaba causando um rebuliço entre os peixes e liberando uma espécie de energia, que seu pai guardava para transformar o mundo num grande oceano da era cenozóica! O resultado é que as águas ficam violentas e cheias de animais pré-históricos, inundando toda a costa.

Quando digo que fala como as crianças, é porque a narrativa é livre e não parece obedecer a nenhuma lógica que não uma imaginação inocente: o mar é um universo fantástico onde vivem peixes com cara de gente; o dono dos peixes é um homem casado com a deusa do amor; a cidade é inundada, mas todos ficam num lugar seguro (para que inundar então? Coisa de criança…que planeja o desastre, mas depois se lembra de que todos precisam estar reunidos no grand finale).

Algumas coisas não são explicadas, outras são até demais. Não há espaço para mistério… Mas, apesar disso tudo, Ponyo é um filme lindíssimo que rende até algumas risadas. O comportamento das crianças é tão perfeito que a história até parece ficar em segundo plano, às vezes, para podermos observar cada detalhe.

Conclusão: é um filme infantil, mas ganha pela beleza.

 

The Runaways – garotas do rock (2010)

The-Runaways-Movie-Stills-kristen-stewart-10013118-600-399Kristen Stewart e Dakota Fanning. Bella, de Crepúsculo (ou a menina do Quarto do Pânico) e a minúscula Lucy, de I am Sam… Não é à toa que The Runaways até foi falado antes de ir aos cinemas, mas foi logo seguido de um silêncio absoluto e de uma passagem curta e tímida pelas telonas.

Um filme sobre a primeira banda de punk rock feminina não seria nada novo, se sua principal compositora não fosse lésbica. E justamente uma lésbica interpretada pela mesma atriz que interpreta a romântica e feminina personagem da saga milionária Crepúsculo…Saga que ainda não terminou, o que nos leva a pensar que uma imagem tão masculina da sua heroína poderia não ser muito desejada pelos produtores… Mas, seja qual for a razão que levou a mídia a de repente esquecer este filme, ele é apenas mais um filme sobre a ascensão e a queda de uma banda.

Joan (Kristen) é uma rockeira de coração: quer aprender a tocar guitarra e comprar jaquetas de couro, mas ouve de todos os lados que “isso não é para mulheres”. Cherrie (Dakota) é uma menina de classe média que ouve David Bowie e gosta de chocar (ela corta os próprios cabelos e pinta o rosto para uma apresentação do colégio). Joan tem a ideia de montar uma banda de garotas, e pede ajuda para o produtor musical Kim Fowley. Ele, então, é responsável por juntar as meninas (as outras três são meras coadjuvantes no filme) e “ensiná-las” a ter a atitude rock n’ roll. Irrita muito quando ele repete insistentemente que é preciso “pensar como um homem, agir como um homem, cantar sobre o que os homens gostam”. Mesmo assim, elas estouram e vão para uma turnê no Japão.

A história é real e as músicas são realmente boas. Joan Jett continuou sua carreira solo depois que a banda se desmanchou, e não teve grandes problemas com isso. Cherrie (vocalista) era mais a cara e a postura, Joan era a artista. A interpretação das duas está perfeita, e você consegue imaginá-las facilmente vivendo nos anos 70 e querendo ser adultas e famosas.

Kristen parece mais à vontade aqui do que em Crepúsculo (aquela cada de “o que diabos estou fazendo aqui?” finalmente desaparece) e Dakota claramente amadureceu como atriz. Não ficamos imaginando a criancinha que ela foi, mas acreditamos na personagem contraditória que ela representa, que é ao mesmo tempo a luz e as trevas para a banda.

Conclusão: para mulheres rockeiras.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Enfrentando fantasmas

Ilha do Medo (Shutter Island, 2010)

shutter island

“O que é pior? Viver como um monstro ou morrer como um homem bom?”

Leonardo DiCaprio fez o que todo galã gostaria de ter feito: parou, pensou e aprendeu a escolher tão bem seus filmes que se tornou o queridinho de ninguém menos que Martin Scorcese. Para quem detestava o loirinho de Titanic, agora não dá para negar que DiCaprio é um dos melhores atores jovens de Hollywood, especialmente para filmes policiais/de suspense.

Depois do romance adocicado no começo da tarde, “Ilha do Medo” não desceu tão fácil. Apesar de não ser um terror cheio de sustos e rostos desfigurados como se poderia esperar pelo título, dá para sair desconcertado. “Ilha” é um suspense psicológico, que discute mais uma vez a questão da loucura (lembra a Ilha do Dr. Moreau no começo, depois O Alienista, depois Clube da Luta), assunto sempre delicado.

Os detetives federais Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo) são chamados para encontrar uma paciente fugitiva na ilha onde ficam presos criminosos perigosos com problemas mentais. Isso na década de 50, quando as guerras ainda estavam na memória e no imaginário de todos os personagens. Lá, Teddy passa a suspeitar que o governo americano esteja realizando experiências cirúrgicas com os pacientes, na linha do que os nazistas teriam feito com judeus e outras minorias – coisa que Teddy tinha lutado para combater.

Se você prestar atenção, o filme não é difícil. O final parece deixar uma dúvida, mas na verdade é bem claro. É só querer acreditar, já que Scorcese não nos dá o final que queremos e pelo qual torcemos o filme todo. A resposta que ele dá é a mais racional, enquanto a que queremos é sobrenatural. Certo ele, não? Desaponta um pouco, mas deixa o filme menos óbvio.

O que fica na cabeça depois, além das imagens das criancinhas mortas e das mulheres enigmáticas, é a possibilidade de pensar a loucura como uma escolha até consciente. Como se pode curar alguém que prefere sua vida imaginada?

Conclusão: tenso, mas não imprevisível.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Romance sem comédia

Cartas para Julieta (Letters to Juliet, 2010)

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Quando fui pegar esse filme na locadora, a atendente me disse que “não se fazem mais romances de verdade, só comédias românticas”. Pois é verdade… E “Cartas para Julieta” é um sobrevivente.

Sophie (Amanda Seyfried, a da foto) é uma “checadora” de informações, algo como uma assistente de escritor, que confere dados e encontra os personagens corretos entre uma multidão de “João da Silva”s. Mas ela quer mesmo é ser escritora.

Antes do seu casamento, ela combina uma viagem para Verona com o noivo, Victor (Gael García Bernal), como uma lua-de-mel antecipada, já que ele está abrindo um restaurante e não terá tempo para viajar depois. Já dá para deduzir muita coisa daí…

Lá, ela acaba visitando a “casa da Julieta”, que tem um muro de tijolos (o da foto) onde mulheres de todo o mundo deixam cartas pedindo conselhos amorosos. Ao final do dia, um grupo de italianas as recolhe e as responde. Sophie adora a história e decide escrever sobre ela. E é ajudando a recolher as mensagens que ela encontra uma carta escondida, escrita 50 anos atrás, por Claire (Vanessa Redgrave).

Sem contar mais, a partir daí o filme tem muito do dé-ja-vu típico de filmes românticos, reviravoltas e finais felizes, mas arrisca também alguns “conselhos” para a nossa sociedade moderninha e desacreditada: existe amor verdadeiro e ele não se perde; quem ama presta atenção na pessoa amada e quer ouvir o que ela tem a dizer. Nada mais clichê, mas é saudável.

O que salta aos olhos é que o personagem “errado”, aquele que não consegue tirar os olhos do trabalho e até reverte a situação e se exime da culpa ao dizer que “estava dando espaço para a mulher fazer suas coisas” é o mais parecido com os personagens reais…Tão parecido que assusta! Acho que fica uma dica para todos nós.

Conclusão: para românticos.