
Não vou negar, sou fã de Tropa de Elite. E, paradoxalmente, sou contra qualquer tipo de violência e de guerra.
Acontece que a voz de Wagner Moura, o Capitão MacGyver-Nascimento (agora coronel), que narra toda a história com um tom controlado, ao mesmo tempo frio e humano, é irresistível.
No primeiro TE, somos apresentados a um BOPE treinado para pressionar, torturar e matar, se necessário, mas sempre em nome de um objetivo. Havia ali uma ética estranha que quase nos convencia, de que bandido é bandido e que com eles vale tudo, desde que se consiga chegar até o mandante e quebrar o esquema do tráfico. O fim era nobre, o problema eram os meios... De ambos os lados.
Neste TE2, a tensão não é mais entre traficantes e o BOPE - os primeiros viram meros coadjuvantes, frágeis até, diante de um poder muito maior. Entram aqui deputados, secretários de segurança pública, um governador e a milícia. Vemos na tela uma transição muito clara entre o domínio do tráfico sobre as comunidades e um novo domínio, político. Os moradores continuam ganhando o que queriam: televisão a cabo, por exemplo, e uma sensação bem vaga de segurança. Mas pagam mais caro por isso. E ainda ajudam a eleger quem os colocou naquela situação... Sim, Padilha está falando diretamente com todos nós.
A novidade, aqui, vem com um personagem chamado Fraga: defensor dos direitos humanos, capaz de negociar com presos e cheio de boas intenções. Ironicamente, ele também quer se eleger deputado, mas sua figura é tão limpa que até parece deslocada naquele meio político. Suas ideias, diametralmente opostas às de Nascimento quando se tratava da realidade nas favelas, acabam se encontrando quando emerge a corrupção de quem estava colocando aqueles traficantes na cadeia. Uma ganância suficiente para enojar os dois.
Se há uma ressalva a fazer ao filme, porém, é o excesso de ficção. Os corruptos parecem vilões de novela, de tão maus, enquanto Nascimento é ainda mais heroico que no primeiro. O filho Rafael, que deveria estar cheio de perguntas mal-respondidas, mágoas e confusões emocionais, apenas abaixa a cabeça e segue o pai ou o padrasto, sem muita distinção. Falta-lhe personalidade. A ex-esposa não aparece muito, mas é coerente.
No fim, a impressão que se tem é a de que Padilha e sua equipe querem acreditar na justiça, nos seus meior burocráticos e legais. Apesar de mostrar um sistema de corrupção vivo e capaz de sobreviver por conta própria, sem um núcleo único que se possa combater, TE2 é otimista. Quem não sai muito otimista do cinema somos nós, espectadores e eleitores...