domingo, 24 de outubro de 2010

Um filme sobre abandono

Hoje fizemos uma gravação muito dramática sobre uma família que foi abandonada pelo pai: ele foi para o Japão, formou outra família e preferiu esquecer a mulher e os três filhos que tivera no Brasil. E essa história é incrivelmente comum, só mudando o cônjuge que abandona e a quantidade de filhos…

Me lembrei então de um filme que assisti em algum cinema da Paulista há alguns anos:

ninguem-pode-saber-posterNinguém Pode Saber (2004, Japão) – uma mulher solteira decide manter os filhos em casa, em segredo, para ter uma chance com a rígida sociedade japonesa, com o trabalho e com os homens. Eles vivem assim por algum tempo, até que ela começa a preferir a vida inventada àquela de mãe, e vai reconstruindo sua rotina longe dos filhos. Até que não volta mais. Enquanto isso, as crianças vão percebendo a necessidade de se aventurar nas ruas e cuidar umas das outras, agora sem dinheiro e sem conhecimento nenhum do mundo.

Foi um dos filmes mais marcantes que eu vi em muito tempo… Recomendo muito! Mas agora, pense você, isso tudo pode ser verdade pra muita gente… Faz pensar.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Uma guerra por dia

Não vou negar, sou fã de Tropa de Elite. E, paradoxalmente, sou contra qualquer tipo de violência e de guerra. 
Acontece que a voz de Wagner Moura, o Capitão MacGyver-Nascimento (agora coronel), que narra toda a história com um tom controlado, ao mesmo tempo frio e humano, é irresistível.
No primeiro TE, somos apresentados a um BOPE treinado para pressionar, torturar e matar, se necessário, mas sempre em nome de um objetivo. Havia ali uma ética estranha que quase nos convencia, de que bandido é bandido e que com eles vale tudo, desde que se consiga chegar até o mandante e quebrar o esquema do tráfico. O fim era nobre, o problema eram os meios... De ambos os lados.

Neste TE2, a tensão não é mais entre traficantes e o BOPE - os primeiros viram meros coadjuvantes, frágeis até, diante de um poder muito maior. Entram aqui deputados, secretários de segurança pública, um governador e a milícia. Vemos na tela uma transição muito clara entre o domínio do tráfico sobre as comunidades e um novo domínio, político. Os moradores continuam ganhando o que queriam: televisão a cabo, por exemplo, e uma sensação bem vaga de segurança. Mas pagam mais caro por isso. E ainda ajudam a eleger quem os colocou naquela situação... Sim, Padilha está falando diretamente com todos nós.

A novidade, aqui, vem com um personagem chamado Fraga: defensor dos direitos humanos, capaz de negociar com presos e cheio de boas intenções. Ironicamente, ele também quer se eleger deputado, mas sua figura é tão limpa que até parece deslocada naquele meio político. Suas ideias, diametralmente opostas às de Nascimento quando se tratava da realidade nas favelas, acabam se encontrando quando emerge a corrupção de quem estava colocando aqueles traficantes na cadeia. Uma ganância suficiente para enojar os dois.

Se há uma ressalva a fazer ao filme, porém, é o excesso de ficção. Os corruptos parecem vilões de novela, de tão maus, enquanto Nascimento é ainda mais heroico que no primeiro. O filho Rafael, que deveria estar cheio de perguntas mal-respondidas, mágoas e confusões emocionais, apenas abaixa a cabeça e segue o pai ou o padrasto, sem muita distinção. Falta-lhe personalidade. A ex-esposa não aparece muito, mas é coerente.

No fim, a impressão que se tem é a de que Padilha e sua equipe querem acreditar na justiça, nos seus meior burocráticos e legais. Apesar de mostrar um sistema de corrupção vivo e capaz de sobreviver por conta própria, sem um núcleo único que se possa combater, TE2 é otimista. Quem não sai muito otimista do cinema somos nós, espectadores e eleitores...