Hoje à noite, o Gemini exibe sua última sessão, depois de 34 anos de filmes "que ninguém mais quer ver" na região da Paulista. O Belas Artes, para desespero de todos nós, deve ser o próximo. O que há de errado com eles?
Um dia desses, ouvi de uma amiga minha que "ler um livro ou ver um filme são verdadeiras torturas, exigem muita paciência". Pasma, descobri que boa parte dos meus amigos não vão ao cinema há coisa de alguns meses, e não sentem falta nenhuma disso. E essa parece ser a explicação: cada vez menos pessoas têm tempo e disposição para simplesmente "ir ao cinema" - no máximo, elas aproveitam a saída do jantar e das compras para ver um filminho-família. No shopping, é claro.
Nada contra a rede Cinemark ou qualquer outro cinema de shopping. Pelo contrário, acho que facilita muito a nossa vida e permite que a gente veja um filme bem-feito (mesmo que não memorável) toda semana, ou quase. Mas, com excessão de um ou outro shopping mais visionário, a programação é só isso mesmo: filmes divertidos e esquecíveis. E se, nesta semana, você quiser um drama francês mais sensível? Ou uma comédia inglesa, de gosto duvidoso? Ou um filme brasileiro de baixo orçamento, mas criativo? Vai ter que correr, porque eles não duram mais que uma semana em cartaz, se entrarem.
Ir a um cinema de rua é algo que só quem gosta muito vai entender. As paredes são forradas de panos escuros, o chão às vezes é sujinho, as poltronas são antigas, a bilheteria fica quase na rua e a fachada exibe cartazes de filmes que você nem ouviu falar. E, se a intenção é fugir um pouquinho do mundo, as salas nunca estão muito cheias e o público é bem silencioso. Uma vez, tive a chance de assistir a um blockbuster no cine Marabá, antes da reforma. Fui de dia, e só havia eu e alguns amigos, o cinema era nosso. O saguão era enorme, e a sala era muito espaçosa. O som nem era aquelas coisas, mas o orgulho que me sentar numa daquelas poltronas históricas foi inexplicável. Foi muito mais marcante do que se tivéssemos assistido ao mesmo "Homem Aranha" no shopping Santa Cruz, por exemplo.Voltando ao Gemini, sabemos que a programação andava bem capenga, e as salas não estavam muito bem conservadas. Mas uma reforma resolveria o problema! Já o Belas Artes, não... Está bonito, confortável e a programação é de longe a melhor da cidade, mas falta dinheiro. Me faltam noções de economia para explicar por que um cinema bem sucedido não se paga sozinho, se os ingressos não são tão baratos assim e há um público fiel. E saber que alguns restaurantes tentaram ajudá-lo distribuindo ingressos quase gratuitos também não anima.
O que me dá alguma esperança é que as locadoras pequenas, cheias de raridades e hollywoodianidades em mesma proporção (assim como a 2001, entre as grandes e caras), estão firmes e fortes. Quem sabe a falência da Blockbuster não é um bom presságio...?
